Quando falamos em sustentabilidade, é comum imaginarmos apenas painéis solares, reciclagem ou redução de carbono. Mas, e se a verdadeira chave para um futuro sustentável também estiver em um lugar mais invisível e ao mesmo tempo mais potente? E se ela estiver na forma como cuidamos das pessoas, dos relacionamentos e dos territórios?
É nesse sentido, que nasce o conceito de liderança sustentável e para entender essa dimensão, fomos convidadas para participar de um debate sobre o tema pela Arapahoe Community College. De forma remota, Mariana Borel, nossa arquiteta e gerente de estratégias institucionais, participou juntamente com outras 4 convidadas que estavam no local (Grace Crain-Wright, Sheah Pirnack e Janette Johnson).

O debate girou em torno de 6 perguntas que trouxemos aqui para aprofundar essa reflexão à seguir:
Respostas por Mariana Borel
01. O que significa para você, pessoalmente, a liderança sustentável?
A liderança sustentável começa com algo muito simples, mas muitas vezes esquecido: o cuidado. Quando falamos de sustentabilidade, pensamos frequentemente em tecnologia, sistemas energéticos ou inovação ambiental. Mas há também outra perspetiva, que aprendemos no trabalho coletivo com mulheres nas comunidades: a de que a sustentabilidade começa no trabalho diário de sustentar a vida como cuidar das casas, das relações e dos territórios. Ao trabalhar com mulheres em contextos de extrema vulnerabilidade socioeconômica, descobrimos uma vasta infraestrutura invisível de cuidado.
Por exemplo, as mulheres que atuam por meio do projeto Arquitetura na Periferia praticam constantemente a sustentabilidade, mesmo sem nomeá-la assim. Elas planejam, organizam recursos, mantêm suas casas ao longo do tempo e ainda realizam melhorias habitacionais otimizando insumos. Essa perspetiva introduz que sustentabilidade não é apenas construir o novo, mas também manter, reparar e cuidar do que já existe, inclusive das relações. A liderança sustentável tem também a ver com salvaguardar as condições que permitam que a vida continue.

Foto: Ju Berzo (Mariana Borel)
2. De que forma a sua identidade como mulher moldou a sua trajetória de liderança?
Ser mulher moldou profundamente a minha forma de entender a liderança. A arquitetura e a construção são campos historicamente dominados por homens, onde liderar costuma estar associado à autoridade, ao controle e à especialização individual. Nosso setor também tem sido moldado por uma estrutura muito hierárquica, o que é obviamente mais difícil para as mulheres numa sociedade patriarcal. Mas, ao trabalhar em comunidades periféricas, especialmente em processos colaborativos, percebi que as mulheres já exercem o papel de liderança, ainda que de forma invisibilizada.
Elas gerem o lar, organizam recursos, sustentam a vida cotidiana, coordenam melhorias nas construções e mantêm redes comunitárias. Nosso trabalho feminista parte desse reconhecimente de tornar visível uma liderança que já existe. Trata-se de trazer luz a isso para que possamos incorporá-la em outros aspectos da vida. Essa forma de liderar, que também orienta nossa prática institucional, incorpora dimensões frequentemente ignoradas pelos modelos tradicionais: o cuidado, a interdependência e a força coletiva.
3. Descreva como os três pilares da sustentabilidade (desenvolvimento econômico, social e ambiental) se interligam na sua área de atuação?
Vou responder a partir da nossa prática de assessoria técnica em periferias brasileiras, onde atuamos com mulheres de baixíssima renda em territórios com pouca infraestrutura urbana. Nesse contexto, os três pilares da sustentabilidade (social, econômico e ambiental) são inseparáveis. A construção civil é uma das indústrias que mais gera resíduos no mundo, e parte disso se deve à falta de planejamento e à baixa qualidade de execução, que leva a retrabalhos e desperdícios.
E nosso trabalho, investimos no desenvolvimento de competências práticas para que as mulheres possam planejar e construir com mais autonomia: medir, desenhar, calcular materiais, organizar a obra. Isso reduz desperdícios, o que é essencial em contextos de escassez e, com isso, diminui impactos ambientais. Também trabalhamos com técnicas construtivas alternativas e sistemas híbridos, combinando métodos convencionais com soluções que reduzem o uso de cimento e o impacto ambiental, muitas vezes com menor custo. Por fim, há uma mudança cultural importante: passamos a entender a construção não como um produto, mas como um processo coletivo, baseado no cuidado, na troca de saberes e na responsabilidade com os recursos.
COMPETÊNCIAS
4. Que competências ou mentalidades devem os estudantes desenvolver para uma liderança sustentável?
Historicamente, arquitetos foram formados para acreditar que são os autores das soluções. Fomos treinados para projetar, apresentar respostas e liderar processos a partir de um lugar de autoridade, quase como se tivéssemos um saber superior. Mas a liderança sustentável desafia esse modelo. A complexidade dos problemas atuais — desigualdade, crise habitacional, mudanças climáticas — exige mais do que respostas prontas. Exige articulação entre diferentes saberes e uma mudança na forma de produzir soluções.
Nesse cenário, os protagonistas precisam ser também os moradores e os grupos historicamente excluídos dos espaços de decisão. O papel do profissional, então, se transforma, pois já não cabe atuar como único detentor do conhecimento. É preciso escutar, trocar e cocriar junto à comunidade. O conhecimento técnico continua importante, mas passa a integrar um processo mais amplo, baseado na partilha de responsabilidades e na construção coletiva.
ESPERANÇA
5. O que lhe dá esperança em relação à próxima geração de mulheres líderes?
Durante muito tempo, a liderança foi associada à hierarquia, à competição e ao controle; características ligadas a uma lógica patriarcal. Mas vejo que isso está mudando. Muitas de nós estamos em busca de redefinir o que significa liderar, explorando modelos baseados na colaboração, na empatia e na responsabilidade coletiva. Essa mudança é fundamental, porque os desafios que enfrentamos hoje não podem ser resolvidos por lideranças isoladas ou centralizadoras.

Sempre estivemos na linha de frente do cuidado, da gestão da vida cotidiana e da sustentação das comunidades. Essas experiências trazem conhecimentos valiosos que agora começam a ocupar espaços de decisão. O que me dá esperança é justamente esse movimento de ter o cuidado, a cooperação e a responsabilidade orientando a liderança. Com isso, começamos a vislumbrar a possibilidade de um futuro sustentável.
FUTURO
Portanto, a sustentabilidade que queremos construir depende, antes de tudo, do cuidado com a vida, então liderar de forma sustentável é menos sobre ter respostas prontas e mais sobre cultivar escuta, vínculo e coragem para agir coletivamente. Que a próxima geração siga inspirando-se nas mulheres que, todo dia, sustentam a vida e transformam o mundo a partir da periferia. Conheça a metodologia da Arquitetura na Periferia AQUI.