Março é um mês de celebração, mas também de reconhecimento e luta. Reconhecimento de histórias que, muitas vezes, foram invisibilizadas e que, quando ganham voz, revelam que a luta de uma mulher nunca é só dela. Ela ecoa em muitas outras.
Na Arquitetura na Periferia, cada obra, cada curso, cada transformação carrega mais do que tijolos, cimento e técnica. Carrega histórias de vida. Histórias que, embora únicas, se conectam em um ponto em comum, a força de mulheres que constroem todos os dias, novos caminhos para si e para suas famílias.
Em um país onde a desigualdade de gênero ainda define quem tem acesso a direitos básicos e onde a violência contra a mulher em sua forma mais extrema, o feminicídio segue sendo uma realidade, por isso garantir autonomia, renda e condições dignas de moradia também é uma forma concreta de enfrentamento. Construir a própria casa, nesse contexto, é também construir proteção, independência e possibilidade de escolha.
Edilene: o direito de imaginar um futuro diferente
Edilene, 36 anos, mãe solo de quatro filhos, é uma dessas mulheres. Sua casa, antes simples com chão de cimento queimado, hoje é um espaço transformado com porcelanato, banheiro finalizado e, principalmente, com dignidade. Mas talvez a maior mudança não esteja só na estrutura física. “Uma parte do curso que mexeu muito comigo foi quando eu vi a minha casa em 3D… Nunca imaginei poder ver minha casa daquele jeito.” Ver sua casa projetada, sonhada, abriu espaço para algo maior em sua vida: o direito de imaginar um futuro diferente.

Rita: quando o sonho deixa de ser inalcançável
Rita também carregava esse sonho que parecia distante. A ideia de ter um banheiro como sempre quis parecia inalcançável até deixar de ser. Como ela mesma pensou: “Eu não ia poder nunca ter um banheiro assim igual eu sonhei.” Hoje, depois de participar dos cursos e ver sua realidade se transformar, ela não só conquistou esse espaço, como também vive o reconhecimento de sua trajetória. Um banheiro adaptado para a filha, que antes era necessidade, virou conquista concreta.

Cris: autonomia financeira e trabalho coletivo
E há também a história da Cris, que revela uma amplitude essencial desse processo: o trabalho coletivo e a autonomia financeira. “A obra só com mulheres é grandiosa, porque a gente ensina, a gente aprende.” Cris participou de várias etapas, da cerâmica ao reboco, da pintura à construção. E encontrou mais do que uma nova profissão, encontrou independência, autoestima e orgulho. “Hoje eu consigo sustentar meu lar dignamente, e meus filhos têm orgulho de mim”, conta.
Lucineide: quando a união feminina reconstrói vidas
E é exatamente nesse caminhar juntas que encontramos a história de Lucineide. Moradora da Ocupação Dandara desde 2009, ela construiu sua casa ocupando todo o lote, o que, com o tempo, se tornou um problema, cômodos escuros e sufocantes, paredes mofadas e um quarto de casal sem nenhuma janela.
O que era um problema estrutural virou dor familiar quando seu marido adoeceu com problemas respiratórios e não conseguia mais dormir naquele ambiente fechado. Por meses, ele foi obrigado a dormir sozinho no sofá da sala. O sonho de construir um segundo andar era inviável. A luz no fim do túnel veio de Jennifer, uma colega do Arquitetura na Periferia, que teve a ideia de demolir uma parede interna, criando uma cozinha americana e trazendo o quarto para a parte ventilada da casa.
Apoiada pelas mulheres do grupo, Lucineide enfrentou o medo de que a parede caísse sobre elas ou a obra ficasse pela metade. Com as próprias mãos e a união do coletivo, elas quebraram os tijolos e provaram que eram capazes. A reforma simples teve um impacto gigantesco. A casa ganhou ventilação e luz, mas o verdadeiro prêmio foi o resgate da dignidade e do afeto. Lucineide pôde voltar a dormir ao lado do marido, abraçá-lo e cuidar dele de perto durante sua fragilidade.

E foi essa mesma união que, em outro momento, transformou sua casa em um verdadeiro ninho de acolhimento. Com a casa finalmente respirando, as paredes ganharam vida e cores cheias de significado. A artista Lu Simões chegou para conduzir a parte artística da oficina. Distribuiu kits de aquarela, explicou como a mistura de cores primárias cria novas tonalidades e ensinou um método para pintar folhagens orgânicas, flores e passarinhos. Durante a oficina de pintura, cheia de união, a sala foi colorida de vermelho e o quarto ganhou um tom de verde. Lucineide fez questão de que o quarto de visitas ganhasse uma “carinha mais infantil” para poder receber e mimar o seu neto.
Nesse ambiente, ela e as participantes superaram o medo de não saberem desenhar e encheram as paredes com delicadas pinturas de passarinhos, flores e folhagens. O que antes era um espaço escuro e limitante transformou-se, pelas mãos carinhosas dessas mulheres, em um espaço de cor e afeto, pronto para celebrar a saúde do marido e as alegrias do neto.
Quando uma mulher avança, ela abre caminho para muitas outras
Histórias como as de Edilene, Rita, Cris e Lucineide mostram que transformar a casa é também transformar a vida. E mais do que isso, mostram que quando uma mulher avança, ela abre caminho para muitas outras.
Por isso, dizer que “Essa história também é minha” não é só um sentimento, é um posicionamento coletivo. É reconhecer que as lutas, conquistas e sonhos dessas mulheres pertencem a todas nós.
Porque, no fim, construir um lar é também construir futuro.
