A política está presente no caminho até o ponto de ônibus, na creche perto de casa, no saneamento do bairro e nas condições da nossa moradia. Antes de uma obra começar, existem decisões sobre onde investir, quais necessidades atender e quem será ouvido. O voto participa dessas escolhas ao definir quem vai representar a população e conduzir as políticas públicas.
A dimensão política da arquitetura aparece no cotidiano. Está no tempo que uma pessoa leva para chegar ao trabalho, na possibilidade de circular pela rua com segurança e nas condições de iluminação e ventilação de uma moradia. Está também na oportunidade de participar das decisões que transformam a própria casa e o lugar onde se vive. Cada escolha sobre o espaço tem consequências para a vida de alguém. Reconhecer essas consequências é parte da responsabilidade de fazer arquitetura.
Votar é escolher quem decide os rumos da cidade

Pensar uma cidade exige perguntar quais experiências orientam suas prioridades. Uma mulher que concilia trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado com familiares percebe necessidades que podem passar despercebidas por quem não vive essa rotina. A distância da creche, o percurso até o ponto de ônibus e a disposição dos ambientes da casa interferem no seu tempo, no seu descanso e nas suas possibilidades de escolha.
Quando essas experiências ficam fora do planejamento, as soluções podem reproduzir desigualdades. Uma proposta pode parecer adequada no desenho e ainda assim, dificultar a vida de quem vai utilizá-la. Por isso, participar precisa significar mais do que ser consultada depois que tudo está definido. É necessário ter condições de compreender alternativas, questionar propostas, estabelecer prioridades e decidir.
A periferia também produz conhecimento

As casas e os bairros das periferias carregam conhecimentos construídos na prática. Há planejamento em uma obra realizada por etapas, negociação na compra de materiais e cooperação nas redes de vizinhança. Reconhecer esses saberes é fundamental para estabelecer uma relação respeitosa entre profissionais e moradores. Isso exige cuidado para não romantizar a precariedade, pois a criatividade de quem constrói com poucos recursos não elimina a necessidade de infraestrutura, acompanhamento técnico e investimento público. Ninguém deveria precisar enfrentar sozinho os riscos e as dificuldades de construir uma moradia.
O encontro entre conhecimento técnico e experiência cotidiana pode ampliar as possibilidades de transformação. Para isso, a escuta deve orientar o trabalho desde o início. Quem mora conhece os usos da casa, seus incômodos, suas prioridades e a atuação profissional contribui para avaliar caminhos e construir soluções em conjunto.
Mulheres decidindo sobre suas casas

No Arquitetura na Periferia, a melhoria da moradia está vinculada à autonomia das mulheres. A proposta reúne práticas de projeto, planejamento de obras e trabalho coletivo para fortalecer a participação das moradoras nas decisões sobre suas reformas.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que a arquitetura é política. Quando uma mulher amplia suas condições de entender um orçamento, discutir uma proposta e planejar uma intervenção, ela também amplia seu poder de decisão. O conhecimento compartilhado pode circular entre vizinhas, apoiar outras reformas e fortalecer iniciativas coletivas. A transformação da casa passa a ser também uma oportunidade de construir confiança e relações de cooperação. Valorizar esse protagonismo exige reconhecer as mulheres como pessoas com desejos, conhecimentos e projetos próprios. Suas escolhas sobre a moradia precisam ter espaço e consequência.
ATHIS: acesso ao conhecimento técnico como direito
A Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social, conhecida como ATHIS, é fundamental nessa discussão. A Lei nº 11.888/2008 assegura às famílias com renda mensal de até três salários mínimos, em áreas urbanas ou rurais, assistência técnica pública e gratuita para sua própria moradia. Esse direito abrange serviços profissionais relacionados ao projeto, ao acompanhamento e à execução de obras de construção, reforma e ampliação, além da regularização fundiária da habitação.
A ATHIS permite tratar o acesso à arquitetura, ao urbanismo e à engenharia como parte do direito à moradia. Orientação técnica pode ajudar a identificar problemas, organizar intervenções e utilizar melhor os recursos disponíveis. Para efetivar esse direito, são necessários financiamento, equipes e continuidade no atendimento. A própria lei prevê a articulação entre os entes públicos para oferecer serviços permanentes e gratuitos, além de incentivar metodologias participativas e a democratização do conhecimento. Uma atuação comprometida com esses princípios precisa incluir as famílias nas escolhas. A qualidade de uma intervenção depende tanto de sua adequação técnica quanto de sua relação com as necessidades de quem vive ali.
Que compromissos orientam a arquitetura que fazemos?
Assumir que a arquitetura é política nos convida a examinar nossas práticas. A quem o conhecimento profissional está acessível? Quais modos de morar são valorizados? Quem participa das decisões? Como uma intervenção pode contribuir para que as pessoas vivam melhor e permaneçam em seus territórios?
Essas perguntas aproximam a arquitetura das disputas concretas pelo direito à moradia e à cidade. Também mostram a importância de iniciativas que compartilham conhecimentos e fortalecem a organização coletiva. Uma arquitetura comprometida com a redução das desigualdades começa por reconhecer a capacidade de decisão de quem habita. E se realiza quando essa participação encontra condições concretas: informação acessível, recursos, apoio técnico e espaço para construir escolhas.
Decidir sobre a própria casa é uma parte importante de decidir sobre a própria vida.