O mês de agosto marca a luta pelo enfrentamento à violência contra as mulheres e reforça a importância da Lei Maria da Penha, criada para proteger vidas, garantir direitos e combater todas as formas de violência de gênero.
Desde a criação da Lei, que já tem uma década, os desafios permanecem. Milhares de mulheres ainda convivem com situações de violência física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Muitas enfrentam dificuldades para denunciar, reconstruir suas vidas e encontrar apoio.
De acordo com o Fórum Braisleiro de Segurança Pública, em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Mas porque o cenário não muda?
Porque a violência contra as mulheres não é um problema isolado, mas resultado de desigualdades históricas, da naturalização do machismo e da persistência de uma cultura que, muitas vezes, tenta controlar os corpos, as escolhas e a liberdade feminina. Embora a legislação represente um avanço importante, a transformação depende também de educação, conscientização, políticas públicas efetivas e do compromisso de toda a sociedade em romper com comportamentos.
Os dados também mostram que essa violência acontece, muitas vezes, dentro de relações de proximidade e confiança. Entre os feminicídios registrados, 59,4% foram cometidos por companheiros e 21,3% por ex-companheiros. Ou seja, para muitas mulheres, a ameaça não está em um desconhecido, mas dentro de uma relação que deveria ser baseada em afeto, respeito e segurança.
Portanto, a liberdade das mulheres começa pelo reconhecimento de sua autonomia. Ela está no direito de estudar, trabalhar, ocupar espaços públicos, tomar decisões sobre a própria vida e viver sem medo. Também está na possibilidade de expressar sua identidade sem que isso seja motivo para julgamentos ou violência. Nenhuma mulher deve ter sua dignidade questionada por sua aparência, por suas escolhas ou pela forma como decide viver.

Luta e Responsabilidades
mulheres brancas. Essa desigualdade mostra como a violência de gênero também se relaciona com desigualdades raciais e sociais que atravessam a vida das mulheres.
Nas periferias, essa realidade assume contornos ainda mais desafiadores. Muitas mulheres acumulam responsabilidades dentro e fora de casa, trabalham, cuidam dos filhos, administram o lar, apoiam familiares e, muitas vezes, são as principais responsáveis pelo sustento da família.
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também revelam que a violência letal não atinge todas as mulheres da mesma maneira. Entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram mulheres brancas. Essa desigualdade mostra como a violência de gênero também se relaciona com desigualdades raciais e sociais que atravessam a vida das mulheres.
Mesmo diante de tantas demandas essas mulheres seguem protagonizando transformações em suas comunidades, organizando redes de apoio e encontrando formas de superar dificuldades diárias. Reconhecer a força dessas mulheres também significa garantir que elas tenham acesso a direitos, oportunidades e condições para viver com segurança e autonomia.
Moradia e possibilidade de recomeço

É nesse contexto que a moradia ganha outra dimensão. Ter onde morar não significa necessariamente estar protegida. Para muitas mulheres, a própria casa pode ser o lugar onde a violência acontece, especialmente quando o agressor é o companheiro ou ex-companheiro.
Por isso, falar em moradia digna também é falar sobre a possibilidade de recomeçar. É ter condições de construir uma vida em um espaço que ofereça privacidade, conforto, funcionalidade e autonomia. É poder transformar o lugar onde se vive de acordo com as próprias necessidades e, quando necessário, encontrar condições para deixar para trás uma situação de violência.
O direito à moradia é parte de uma rede maior de direitos. Ele não resolve sozinho a violência contra as mulheres, mas pode contribuir para ampliar suas possibilidades de escolha e reconstrução.
O direito à moradia segura é, portanto, um elemento fundamental para promover autonomia e reduzir desigualdades.
É justamente nesse ponto que o trabalho da Arquitetura na Periferia ganha ainda mais significado. Quando o projeto leva assistência técnica, conhecimento e soluções acessíveis para famílias que não tem acesso ou renda que possam realizar essas mudanças, demonstra que a arquitetura pode ser uma ferramenta de transformação social. Cada projeto desenvolvido, cada reforma realizada e cada família atendida reforçam que construir espaços mais seguros e acolhedores também é fortalecer a autonomia das mulheres, valorizar suas histórias e contribuir para comunidades mais justas, humanas e resilientes.
Porque transformar uma casa é, muitas vezes, o primeiro passo para transformar vidas.