Mulheres na obra periferia estão reescrevendo a história da construção civil com as próprias mãos. Se tem um lugar que está ganhando um novo rosto, uma nova força e uma nova energia, é o canteiro de obras da periferia. E quem está dando esse tom são as mulheres. Sim, nós! Aquelas que, por muito tempo, ouvimos que “lugar de mulher não é na obra”. Hoje, estamos aqui para desconstruir esse pensamento, tijolo por tijolo.
Conhecer a obra
Conhecer a obra não é apenas “saber o que está acontecendo”. É entender o chão que pisa, a estrutura que abriga, os detalhes que transformam um espaço em lar. Quando uma mulher conhece cada etapa da construção, ela deixa de ser apenas espectadora ou beneficiária final. Ela se torna parte ativa da criação. E isso é poderoso.
Executar, construir, erguer: a mão na massa como ato de autonomia
Colocar a mão na massa ou no cimento, na tinta, no azulejo, é um ato de autonomia. É a certeza de que não dependemos exclusivamente de outrem para materializar nossos sonhos. Na periferia, onde a criatividade e a resiliência são ferramentas do dia a dia, ver mulheres manejando a desempenadeira, assentando o primeiro bloco da sua própria casa, é um marco. É a quebra de um ciclo de dependência e a construção de um legado de independência.
Essa execução vai além do físico. É sobre confiança. Sobre olhar para uma parede e saber que foi sua mão que a tornou reta. É sobre entender o encanamento e não temer um vazamento. É sobre planejar a laje e saber que ela vai aguentar o peso do futuro. Esse conhecimento é um patrimônio que ninguém tira.
A autonomia conquistada no canteiro transborda para a vida. Uma mulher que aprende a ler um projeto, a orçar materiais, a negociar com fornecedores e a liderar uma pequena equipe na reforma do quintal está desenvolvendo habilidades que a tornam mais segura, mais crítica e mais dona do seu espaço, não só o arquitetônico, mas o social e o econômico.
Ela se torna uma referência na sua rua, na sua comunidade. Inspira outras mulheres, mostra para suas filhas e filhos que lugar de mulher é onde ela quiser estar, inclusive comandando a obra.
A obra como saber coletivo
Quando mulheres se empoderam tecnicamente na construção, toda a comunidade ganha. Surge uma rede de apoio, de troca de saberes: “você me ensina a assentar piso, eu te ensino a pintar com rolo”. A obra deixa de ser um mistério dominado por poucos e se torna um saber coletivo, acessível.
Esse movimento não apaga a importância de profissionais especializados, mas amplia o leque de quem pode participar ativamente da construção dos nossos espaços. É sobre somar forças, não substituir.
Por um novo cenário: Arquitetura na Periferia e o protagonismo feminino
A Arquitetura na Periferia tem reforçado que é possível sim, mulheres na obra. Conhecer, executar e ter autonomia na obra não é modismo ou curiosidade. É uma ferramenta fundamental de transformação pessoal e urbana.
“Quando elas disseram assim: ‘vamos colocar a mão na massa’, eu falei assim: ‘isso não vai prestar.’ Quando você vê, você acha que é uma coisa muito difícil, impossível de fazer. Mas assim, quando tem uma pessoa para te ensinar e você tem força de vontade, você aprende. Eu construí em cima, meu banheiro já tá quase todo com a ligação hidráulica feita, recebi areia, vou rebocar toda minha casa por fora, colocar cerâmica e pintar minha casa. O projeto, ele é muito importante, ele ajuda mulheres a se descobrir, a se aceitar.”
— Cely Silva – Ocupação Eliana Silva – Barreiro BH
Que mais mulheres saibam o nome das ferramentas, a função dos materiais, a sequência das etapas. Porque quando uma mulher constrói o próprio espaço, ela está, na verdade, reformando o mundo ao seu redor.